Tratamentos

Cicatrizes

«Quero retirar esta cicatriz», deve ser dos pedidos mais frequentes para um cirurgião plástico e aquele mais difícil de conseguir, pois as cicatrizes não se retiram. Podem ser disfarçadas, substituídas por outras menos visíveis, mas ainda não se conseguem apagar. Quando se faz um corte na pele, cirúrgico ou não, umas células específicas da Derme, chamados fibroblastos, produzem um aumento de Colagénio no sítio do corte, levando à cicatrização. O tipo de cicatriz final depende do balanço entre a produção de Colagénio e a sua reabsorção à medida que a cicatriz vai estabilizando. Se ocorrer mais produção que reabsorção produzem-se cicatrizes hipertróficas ou mesmo Quelóides, é como se ocorresse um excesso de cicatrização. Clinicamente, a cicatriz hipertrófica é uma cicatriz alta e vermelha. O Quelóide é também uma cicatriz alta e vermelha mas que se prolonga para fora da cicatriz inicial, como que em cachos. As cicatrizes normalmente têm um período inicial, em que se encontram ligeiramente vermelhas e finas, habitualmente nos primeiros dois meses, após o que se tornam um pouco mais espessas e vermelhas, este período é variável individualmente. Em cerca de seis meses vão perdendo a cor vermelha e, gradualmente, vão ficando claras e finas. Em um a dois anos estão completamente claras. Algumas cicatrizes pigmentam, ficando acastanhadas para sempre. A cicatriz hipertrófica e o Quelóide, quando se manifestam, é nos primeiros meses, aumentando a grossura e a vermelhidão com algum prurido e mantém-se assim durante anos ou mesmo para sempre. As cicatrizes demoram em média cerca de seis meses a estabilizar, pelo que só após este período se deve ponderar a necessidade de correção cirúrgica. A qualidade final de uma cicatriz depende de vários fatores tais como o tipo de ferida, isto é, se é cirúrgica ou traumática, da orientação, localização e tensão da incisão, da qualidade e tipo da sutura usada, dos cuidados pós-operatórios, mas sobretudo da informação genética de cada individuo. Isto quer dizer que podemos ter o planeamento e execução perfeitos, assim como todos os cuidados no pós-operatório e mesmo assim sermos surpreendidos com uma cicatriz hipertrófica ou Quelóide. Existem áreas do corpo mais suscetíveis a formar cicatrizes hipertróficas, tais como a face anterior do tórax, ombros e face externa do braço. Uma cicatriz também com orientação perpendicular às linhas naturais da pele terá mais tendência a alargar e a ser hipertrófica. Sabemos também que os indivíduos de raça negra têm maior probabilidade de fazer Quelóide. Porque somos por vezes surpreendidos por um indivíduo de pele clara formar cicatrizes hipertróficas? Porque é portador de genes que ditam a sua qualidade de cicatrização. Existem regras básicas no pós-operatório imediato, tais como hidratação da cicatriz e a proteção solar, de modo a evitar a pigmentação. A compressão elástica e a aplicação de gel próprio para cicatrizes, diminuem a formação excessiva de colagénio e assim diminuem a probabilidade de hipertrofia. Só após o período de estabilização da cicatriz, se deve avançar para tratamentos no caso de cicatrizes pigmentadas, alargadas, hipertróficas e Quelóides. Poderá ser necessária a correção cirúrgica e a infiltração de corticoides, nos casos de hipertróficas e Quelóides. Nos casos mais exuberantes poderá mesmo ser necessário a realização de Radioterapia associada ou não a excisão cirúrgica. Infelizmente, em certos casos, nem os tratamentos mais agressivos são eficazes. Portanto, apesar do cuidado e prevenção, a qualidade da cicatrização pode ser uma má surpresa, fora do controlo médico.


voltar